Filhos do
caos em um dia normal.
06h10min
toca o despertador.
Olhos de mãe
embriagados em sono relutam no primeiro salto do dia. Filhos devidamente
chacoalhados e arrancados da cama quente gemem suas preguiças enquanto são
vestidos de escova dental nas mãos.
Enquanto a
cafeteira prepara o café, a mãe põe na mesa o copo com leite (quase cheio) de
cada filho e alguns pães pré-fabricados (empacotados) e a margarina que (ufa)
ainda tem um tico!
A ela (mãe)
sobrará o café preto, mas que mãe precisa mais que isso?
No banheiro
na ansiedade da pressa se percebe frente ao espelho - os cabelos mal tingidos
fazem despontar em primeiro plano os fios brancos que insistem manterem-se
rebeldes
O banho apressado
quase a faz esquecer-se do desespero que lhe dá ao perceber o restolho de
shampoo e falta do creme: “deixamos a poesia do cabelo macio para o final de
semana, onde tudo correndo bem poderei ir às compras”. E enquanto corre a água
no corpo, lembra-se também que ainda não pagou a conta da luz nem do
condomínio, mas o aluguel do mês passado, ah, esse já está pago! E sorri! Sente-se também
orgulhosa por não ter mais telefone e nem a conta deste.
7:20
Crianças
entregues a escola.
O foco agora
está todo voltado aos esperados e batalhados negócios, pelo menos até às
11h45min (saída dos filhos na escola)
Ana é
corretora de imóveis, 36 anos, divorciada. Não recebe pensão do marido o que
torna mais complicado e cansativo prover o sustento de Eduardo e Camila (seus
filhos) e manter as sobrancelhas e unhas em dia.
Em frente ao
prédio combinado, Ana espera o cliente. Passa das 11:00 horas e o tempo
restrito começa a apertar seu coração...
Mas que mãe
precisa saber que tem coração? Basta saber que tem filhos!
12:15
Com a
respiração ofegante em culpa, Ana a mãe, estaciona em frente à escola e lá
estão eles... Carinhas de fome em olhares distantes não os fazem perceber o
primeiro olhar lacrimoso (do dia) da mãe.
Já em frente
à casa da avó dos meninos, a mãe despede-se dos filhos com beijinhos rápidos,
tanto quanto sua necessidade em plantar e colher da sua agenda os resultados. Sai em disparada, lembrando-se que precisa
abastecer o carro sentindo-se de certa forma aliviada porque ainda poderá usar
os últimos créditos do cartão para isso. Lá mesmo no posto de gasolina, pede um
salgado e enquanto engole sua primeira refeição do dia, planeja suas
estratégias profissionais.
E assim
segue o dia, parecidos (quando normais) com todos os outros que já ocorreram. À
tardinha o corpo restante de Ana (porque parte do corpo é pó) agradecida,
recolhe seus filhos para si e começa o ciclo noturno de trabalho: cuidar da
casa, do jantar, da roupa, dos conselhos e tarefas dos filhos e de preparar o
próximo dia que por “graça” haverá de ocorrer. Não vamos falar nesse texto
sobre os dias “anormais” onde, por exemplo, as mães não têm onde deixar seus
filhos, ou um ou outro está doente e sem plano de saúde etc.
Creio que
algumas mães ao lerem esse texto se perceberão nele. Algumas sentirão o cansaço
que esse trajeto/projeto de vida faz acontecer além corpo e maior na alma. Afinal, corpo de mãe
diante de corpo de filho, sequer precisa existir!
Fome de mãe
Dores de mãe
Saudades de
mãe
No corpo da
mãe é corte pequeno!
Mãe normal
que ama filho é no corpo do filho que sente maior dor!
E na fome do
filho
Na lágrima do filho
No desejo do
filho
Que ela
sofre maior corte e tem maior força!
E luta e
vence porque amor de mãe, assim como todo amor é potência, vencedor em si
mesmo!
Margareth P.
Navarro