quinta-feira, 8 de março de 2012



Filhos do caos em um dia normal.



06h10min toca o despertador.

Olhos de mãe embriagados em sono relutam no primeiro salto do dia. Filhos devidamente chacoalhados e arrancados da cama quente gemem suas preguiças enquanto são vestidos de escova dental nas mãos.

Enquanto a cafeteira prepara o café, a mãe põe na mesa o copo com leite (quase cheio) de cada filho e alguns pães pré-fabricados (empacotados) e a margarina que (ufa) ainda tem um tico!

A ela (mãe) sobrará o café preto, mas que mãe precisa mais que isso?

No banheiro na ansiedade da pressa se percebe frente ao espelho - os cabelos mal tingidos fazem despontar em primeiro plano os fios brancos que insistem manterem-se rebeldes

O banho apressado quase a faz esquecer-se do desespero que lhe dá ao perceber o restolho de shampoo e falta do creme: “deixamos a poesia do cabelo macio para o final de semana, onde tudo correndo bem poderei ir às compras”. E enquanto corre a água no corpo, lembra-se também que ainda não pagou a conta da luz nem do condomínio, mas o aluguel do mês passado, ah, esse  já está pago! E sorri! Sente-se também orgulhosa por não ter mais telefone e nem a conta deste.

7:20

Crianças entregues a escola.

O foco agora está todo voltado aos esperados e batalhados negócios, pelo menos até às 11h45min (saída dos filhos na escola)

Ana é corretora de imóveis, 36 anos, divorciada. Não recebe pensão do marido o que torna mais complicado e cansativo prover o sustento de Eduardo e Camila (seus filhos) e manter as sobrancelhas e unhas em dia.

Em frente ao prédio combinado, Ana espera o cliente. Passa das 11:00 horas e o tempo restrito começa a apertar seu coração...

Mas que mãe precisa saber que tem coração? Basta saber que tem filhos!

12:15

Com a respiração ofegante em culpa, Ana a mãe, estaciona em frente à escola e lá estão eles... Carinhas de fome em olhares distantes não os fazem perceber o primeiro olhar lacrimoso (do dia) da mãe.

Já em frente à casa da avó dos meninos, a mãe despede-se dos filhos com beijinhos rápidos, tanto quanto sua necessidade em plantar e colher da sua agenda os resultados.  Sai em disparada, lembrando-se que precisa abastecer o carro sentindo-se de certa forma aliviada porque ainda poderá usar os últimos créditos do cartão para isso. Lá mesmo no posto de gasolina, pede um salgado e enquanto engole sua primeira refeição do dia, planeja suas estratégias profissionais.

E assim segue o dia, parecidos (quando normais) com todos os outros que já ocorreram. À tardinha o corpo restante de Ana (porque parte do corpo é pó) agradecida, recolhe seus filhos para si e começa o ciclo noturno de trabalho: cuidar da casa, do jantar, da roupa, dos conselhos e tarefas dos filhos e de preparar o próximo dia que por “graça” haverá de ocorrer. Não vamos falar nesse texto sobre os dias “anormais” onde, por exemplo, as mães não têm onde deixar seus filhos, ou um ou outro está doente e sem plano de saúde etc.

Creio que algumas mães ao lerem esse texto se perceberão nele. Algumas sentirão o cansaço que esse trajeto/projeto de vida faz acontecer além  corpo e maior na alma. Afinal, corpo de mãe diante de corpo de filho, sequer precisa existir!

Fome de mãe

Dores de mãe

Saudades de mãe

No corpo da mãe é corte pequeno!

Mãe normal que ama filho é no corpo do filho que sente maior dor!

E na fome do filho

Na lágrima  do filho

No desejo do filho

Que ela sofre maior corte e tem maior força!

E luta e vence porque amor de mãe, assim como todo amor é potência, vencedor em si mesmo!



Margareth P. Navarro

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